domingo, 22 de janeiro de 2017

Pensatas de Domingo. Arquivo queimado. E agora?



Pelo jeito a morte de Teori Zavascki enganou muito poucos, tanto na imprensa quanto entre a população em geral. A verdade é que quando publiquei aqui em “Novas Pensatas” anteontem (20/01/17) às 20:27h e no Facebook na manhã seguinte as primeiras reflexões sobre o fato, já havia um clima de desconfiança generalizado em todo o país.
Ontem à tarde, no decorrer de pesquisas sobre o tema, leitor habitual de “Outras Palavras” que sou, dei de cara cm este artigo e pensei com os meus botões por que não publica-lo por inteiro, já que ele era completo e completamente aquilo que eu queria dizer. O texto original que reproduzo a seguir, escrito por Antonio Martins está em http://outraspalavras.net/

Não é preciso transformar o ministro Teori Zavascki, morto num acidente suspeitíssimo, em herói. Encarregado do processo da Lava Jato no STF, ele foi, como quase todos os seus colegas, incapaz de defender a Constituição e a imparcialidade da justiça. Mas é facílimo identificar os que se beneficiam com seu desaparecimento. Em primeiro lugar o presidente Temer; seu “governo de réus” (para usar a feliz expressão feliz de Paulo Sérgio Pinheiro); as cúpulas do PSDB e PMDB; e centenas de deputados e senadores destes e outros partidos governistas. Todo este (grupo) (malta) estaria ameaçado e desmoralizado já a partir de fevereiro, quando Teori homologaria as delações premiadas dos executivos da Odebrecht, expondo a corrupção e hipocrisia dos que derrubaram o governo eleito e tomaram o poder em maio.

O “acidente” favorece, em segundo lugar, o prolongamento do golpe de Estado e a adoção de sua agenda de retrocessos selvagens. A quebra do sigilo sobre as delações (outra decisão que Teori mostrava-se disposto a tomar) demonstraria que o recebimento de propina e o favorecimento ao poder econômico são práticas corriqueiras e quase universais no mundo da política institucional. Esta revelação destrói o núcleo central da narrativa dos golpistas – a ideia de que o impeachment foi adotado para afastar um grupo corrupto e sanear a vida nacional. De quebra, frustrar ou adiar a publicação oficial das delações permite a um Congresso onde há centenas de prováveis tocar impunemente a agenda de horrores em curso. Nela se incluem, entre tantos outros pontos, o desmonte da Previdência Social Pública, a anulação na prática da maior parte da legislação que protege o trabalho, o bloqueio da demarcação de terras indígenas e o prosseguimento da entrega do pré-sal.

A análise inicial do regimento do STF sugere que todos processos sobre a Lava Jato, até agora centralizados em Teori Zavascki, serão entregues ao novo ministro do Supremo – a ser proposto pelo presidente da República e confirmado pelo Senado. Nas condições atuais, trata-se de uma afronta à ética. As poucas delações vazadas até agora indicam que Michel Temer foi apontado como receptor de propina ou praticante de favorecimento ilícito 43 vezes pelos executivos da Odebrecht. Em que julgamento legítimo pode o réu escolher o juiz que decidirá sua pena – ou sua absolvição? A necessária confirmação da escolha pelo Senado torna o escárnio ainda mais completo. Porque serão padrinhos do novo ministro, além de Temer, dezenas de senadores igualmente citados como corruptos.

Ninguém duvide: tanto Michel Temer quanto os senadores executarão, se lhes for permitido, o roteiro bizarro exposto acima. Eles tomaram o poder sem pudor, conscientes de sua hipocrisia, nas sessões grotescas da Câmara e do Senado em 19 de Março e 31 de agosto. Eles, sem vergonha, obrigam o país a engolir uma agenda impopular e nunca submetida a consulta alguma. Se foram capazes de tanto, o que não farão para salvar a própria pele e para preservar o sistema espúrio que lhes dá cada vez mais riqueza e poder?

Na vida e na política, as omissões são muitas vezes mais trágicas que os erros. As manifestações contra o golpe, que mobilizaram multidões e cresceram até abril, arrefeceram em seguida. Um pensamento acomodado tem soprado a alguns setores, mesmo entre a esquerda, que os males do presente poderão ser reparados em 2018, quando um novo presidente for eleito. Outros, que se julgam mais radicais, deixaram as ruas porque, enojados com razão de toda a política institucional, avançaram um limite. Amorteceram-se e se tornaram incapazes de lutar contra a brutalidade específica de um golpe capaz de instalar o Estado de Exceção em sua versão mais crua.

A morte de Teori Zavascki abre espaço para uma recuperação. Ninguém será capaz de convencer a sociedade de que foi de fato um acidente (é sugestivo que a velha mídia, discreta sobre a vida íntima de quase todos os poderosos, alardeie agora, como cortina de fumaça, a possível presença de uma amante no voo fatal). Os que queremos uma reforma política profunda devemos assumir nossa responsabilidade.

É preciso impedir que a casta política se safe e que o golpe se amplie. Há instrumentos para bloquear esta fuga. O futuro ministro do STF que assumirá o processo precisa ser questionado. Deve se comprometer, como indicava claramente Teori, a aceitar os acordos de delação premiada da Odebrecht. Poderá alegar que precisa de tempo para analisar milhares de horas de gravação, dezenas de milhares de páginas de processo. Mas isso não poderá servir de pretexto para manter o processo engavetado. O sigilo precisa ser rompido. Estamos na era do digital. Nada mais tacanho que impedir os brasileiros de conhecer as práticas políticas de que os quer governar.

A luta contra a corrupção – muitos têm dito – não pode ser uma bandeira dos conservadores. A oportunidade para frear esta captura está dada agora. Não se trata, como alguns chegaram a propor, de aderir às manifestações reacionárias. Trata-se de propor propor agenda às maiorias que percebem, tanto quanto nós, o esvaziamento da política. Trata-se de construir, com o impulso do fato inesperado, uma narrativa mais rica sobre o sequestro da democracia pelo poder econômico. Trata-se de tomar a frente, de propor saídas concretas diante de um acontecimento que comove o país. Estamos dispostos?

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Teori Zavascki. Acidente ou atentado?



Não demorou muito, após a confirmação de que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki se encontrava entre as vítimas fatais do acidente de avião em Paraty (RJ), na tarde desta 5ª feira, para que começassem uma série de rumores de que o ministro teria sido vítima de um atentado.

Isso se deve ao fato de que Teori, que estava de férias, deveria homologar novas delações da Odebrecht pela operação Lava Jato que poderia comprometer uma série de “caciques” da política golpista, como o “presidente” Michel Temer (PMDB), José Serra, Aécio Neves e outros membros da cúpula do PSDB. Após os primeiros rumores, começaram a vir à tona alguns fatos que justificam a desconfiança com o acidente aéreo.

O primeiro deles é o resgate de um tweet Francisco Zavascki, filho do ministro, de maio do ano passado, em que afirma: “É óbvio que há movimentos dos mais variados tipos para frear a Lava Jato. Penso que é até infantil que não há, isto é, que criminosos do pior tipo (conforme MPF afirma) simplesmente resolveram se submeter à lei! Acredito que a Lei e as instituições vão vencer. Porém, alerto: se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar…! Fica o recado!”.

Um outro fato que deu combustível às “teorias da conspiração” foi também um tweet, este postado nesta 5ª feira (19) pouco antes das primeiras notícias do acidente com o avião de Teori. O senador José Medeiros (PSD-MT) afirmou que o “Jornal Nacional” daquela noite traria uma “bomba” envolvendo o STF. Puro boato ou um aviso prévio dos acontecimentos?

Na realidade a definição de quem herdará os processos de Teori está no regimento interno do STF. O artigo 38 diz que, em caso de aposentadoria, renúncia ou morte, o relator de um processo é substituído pelo ministro nomeado para a sua vaga. Neste caso, a Lava Jato iria para um novo ministro a ser indicado por Temer. Está explicado, não é?

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os Estados Unidos e o assassinato de Lumumba



Completados 55 anos de seu assassinato, e, finalmente os EUA admitiram publicamente seus atos nesta sinistra e covarde execução!


"O tempo é senhor da razão” diz o provérbio, segundo o qual o passar do tempo esclarece todas as dúvidas. Foi necessário mais de meio século para os Estados Unidos admitirem sua responsabilidade no homicídio que vitimou Patrice Lumumba, líder da independência do antigo Congo Belga, cujas consequências o tornam um crime de lesa-humanidade. Hoje, já se sabe que o republicano Eisenhower ordenou diretamente a Allen Dulles, diretor da CIA entre 1953 e 1961, que Lumumba fosse eliminado.

A agência montou o “Projeto Wizard” e a missão só foi cumprida no início do governo do democrata John Kennedy, que destinou 500 mil dólares para pagamento das tropas e equipamentos militares, no Congo. Boa parte dessa quantia foi recebida pelos assassinos do primeiro ministro congolês. Em depoimento ao senado estadunidense, em 1975, o então presidente Lyndon Johnson afirmou que no momento em que o presidente dos EUA deu aquela ordem direta a Dulles, provocou no grupo presente à reunião um profundo silêncio que durou de 15 a 20 segundos. Há até pouco tempo, a gravação desse depoimento foi mantida oculta.

Financiado por Leopoldo II, o rei da Bélgica, em 1878, o explorador Henry Stanley chegou à África Central com a missão de fundar entrepostos comerciais com povos da etnia “Bantú”, distribuídos em algumas centenas de reinos, sendo os dois maiores o “Baluba” e o “Congo”. A descoberta de que as montanhas de Katanga, ao sul da região, guardavam milhares de toneladas de diamantes despertou a cobiça das nações européias e de seus aliados. A Conferência de Berlim, entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, decretou que aquele território era uma possessão pessoal de Leopoldo II, responsável por um dos maiores genocídios da história da humanidade, e em 1908 foi oficializado como colônia da Bélgica, passando a se chamar Congo Belga.

Através de mineradoras multinacionais e da violenta força de repressão colonial, o Ocidente explorou o Congo e seus povos, na primeira metade do século 20, até surgir um líder eloquente e anticolonialista convicto chamado Patrice Émery Lumumba. Funcionário dos correios, nascido em 1925, em Sancuru, província de Kasai, ele fundou, em 1958, o MNC (Movimento Nacional Congolês). Em 30 de junho de 1960, o país conquistou a independência e a maioria dos colonos europeus fugiu. Realizaram-se eleições que tornaram Joseph Kasavubu presidente, e Lumumba primeiro ministro. Mas a busca de apoio institucional e militar na União Soviética revoltou os governos ocidentais.

O exército belga e a CIA, agora sob ordem do rei Balduíno I, financiaram as lideranças regionais para destituir o novo governo. Convenceram os habitantes de que Katanga, tão rica, não poderia ficar sob o domínio comunista. Dez semanas depois da posse, revoltas eclodiram em todo o país sob liderança de Moise Tshombe. A ONU enviou os boinas azuis da “Força de Paz” sob comando norteamericano. No entanto Lumumba foi sequestrado por mercenários, torturado e fuzilado diante dos “soldados da paz”. Ao assumir o poder, Tshombe enfrentou novas rebeliões. Houve golpes e contragolpes, até 1965, quando Mobutu Joseph Désiré tomou o poder e permaneceu por mais de três décadas.

A política de “africanização” de Mobutu, proibindo nomes ocidentais e cristãos, mudando a denominação do país para Zaire e a da capital de Leopoldville para Kinshasa, também incomodou o Ocidente, que o apoiava. Ele mudou até o próprio nome para Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa “o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista, deixando fogo à sua passagem”. Nas duas décadas que se seguiram, o país enfrentou a guerra civil. E então, os ocidentais passaram a financiar o oposicionista, Laurent-Désiré Kabila.

Vencido, em 1997, Mobutu fugiu para o Marrocos, onde morreu. Kabila assumiu o poder e o país voltou a se chamar República Democrática do Congo. O novo governo prometeu democratização, mas tomou medidas autoritárias, gerando novas revoltas, agora patrocinadas pelos governos de Ruanda e Uganda, conforme os interesses das potências ocidentais.

Laurent Kabila se manteve na presidência, graças ao apoio militar de Angola, Zimbabwe e Namíbia, até ser assassinado, em 2001. Em 2006, aconteceram as primeiras eleições presidenciais naquele país, depois de 40 anos. O vencedor foi Joseph Kabila Kabange, filho de Laurent, que ainda preside o país. Resta saber se a significativa indenização devida pelos EUA por sua responsabilidade no assassinato de Lumumba ajudará a fortalecer esse país “democrático” e ressarcirá os herdeiros daquele que foi um dos grandes líderes do continente africano no século 20.

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domingo, 15 de janeiro de 2017

Pensatas de Domingo. Lendo romance policial como realidade politica dos EUA e a realidade politica dos EUA como romance policial: o caso Barack Obama


de Jorge Vital de Brito Moreira

Não sou fã especial do gênero literário criado por Edgard Alan Poe que se denomina “romance policial”: nem da sua vertente inglesa (Arthur Conan Doyle, Agatha Christie…) nem da sua vertente norteamericana (o hard-boiled” de Dashiell Hammet e Raymond Chandler...). Porém como crítico da cultura, tenho a obrigação de estar quase sempre interessado nas relações entre cultura, ideologia, estética e política  que se manifestam, explicita ou implicitamente, na literatura, no cinema, na música e em qualquer outro discurso cultural produzido dentro do sistema capitalista de produção da sociedade.

Em outras palavras, é necessário estudá-lo por ser um gênero muito popular e muito consumido publicamente por gente de diferentes estratos sociais. Assim, poderia afirmar que estou quase sempre interessado em saber como se produz e reproduz o imaginário coletivo/popular, e quais são as formas ideológicas através das quais o sistema capitalista manufatura o consenso popular (através da cultura de massas)  com o objetivo de legitimar (ou deslegitimar) determinados projetos do poder socioeconômico, politico e cultural. Dado o anterior, me sinto inclinado a buscar algum tempo para ler tanto o romance policial inglês como os romances norteamericanos (sem excluir os filmes de detetives); sobretudo para ler os atuais romances policiais de escritores contemporâneos como Manuel Vázquez Montalbán (espanhol), Paco Taibo II (mexicano) e do brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza (1).

Dado o proposito, faz três dias, acabei de ler, dentro da vertente norteamericana hard-boiled”, um importante romance do autor estadunidense Jim Thompson que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecê-lo. Na língua inglesa, o romance se intitula “Pop. 1280” mas poderia ser titulado “1.280 almas”, se for traduzido ao português.

Pop. 1280” é um dos mais famosos livros do escritor Thompson (2). Publicado em 1964, o título se refere ao número de habitantes de uma pequena cidade de um estado (possivelmente o Texas) dos EUA, onde dentro do número 1280, também se incluem os negros da cidade, pois, conforme a narrativa, o censo obriga a contar os negros “como se fossem seres humanos”. De fato, o romance questiona e representa, trágica e comicamente, os conflitos sociais produzidos pelas diferenças de gênero (homem/mulher) e de raça (branco/preto) dentro de uma sociedade inteiramente dividida pela luta de classes sociais. 
  
O romance é narrado na primeira pessoa e o narrador/protagonista, Nick Corey, é o xerife de Potts County, um pequeno povoado de um estado sulista dos EUA. Aparentemente gentil, inofensivo e simpático, o demagógico Nick Corey esconde uma inteligência maquiavélica que lhe ajuda a fazer diabólicos planos para ser reeleito como xerife da cidade e vencer os candidatos adversários que oferecem melhores princípios morais que ele (e que estariam distantes da corrupção) num meio ambiente patriarcal, classista, racista, sexista, formado por gente puritana e hipócrita.

Assim, quando o personagem Nick Corey, decide conquistar algo (ou alguém) para justificar e legitimar seus objetivos políticos desumanos e individualistas, costuma usar e abusar da violência. Mas a violência que ele usa e abusa não será apenas um simples recurso, será muito mais uma complexa extensão instrumental do seu modo de pensar e de sentir, ou seja, daquilo que ele considera inevitável e eficiente para o ambiente em que vive. Assim, Nick se revela não apenas como um indivíduo psicopata, mas como um agente político cuja psicopatia se expressa num tipo de ética e estética que são profundamente desumanas mas que é altamente funcional para manter-se no poder numa sociedade destrutiva, radicalmente exploradora, dominadora e opressiva como a do sistema capitalista colonialista/imperialista dos EUA que conhecemos.

Entre os elementos formais destacados neste romance se encontra a presença de um leitmotiv que ao longo da narrativa expressa não somente o fluxo da má consciência ética e funcional do xerife Nick Corey mas que representaria, por analogia, o fluxo da má consciência da maioria dos presidentes e das autoridades dos Estados Unidos da América.  No capítulo XXIII do romance, por exemplo, o xerife Nick Corey (que tinha planejado o assassinado de sua esposa Myra e do seu cunhado Lennie) tem um último diálogo com a amante Rose (que tinha acabado de realizar o assassinato da esposa e do cunhado do xerife). Neste diálogo, Rosa pede ajuda do xerife, dizendo: “- Você tem que me ajudar, Nick. Você tem que me ajudar a resolver isso como seja.” (3)

O xerife Nick, calculando apropriar-se da fazenda de Rose, além de planejar reconciliar-se com a primeira mulher, recusa-se a usar seu poder para ajudar a amante a se livrar do crime cometido. O xerife responde: “- Bem, veja, eu não sei bem como eu poderia fazê-lo. Afinal, você é culpada de assassinato, fornicação, hipocrisia e ...” O xerife Nick recomenda à amante que fuja para um lugar bem distante de Potts County. Rose não pode acreditar nas palavras do infame xerife, e furiosa protesta: “- O que você está dizendo? Que idiotices são essas que você está falando?”

Nick responde cinicamente: “- Bem, veja, pode parecer idiotice, mas eu não tenho a menor culpa. Segundo a lei, eu deveria estar atento para os grandes e poderosos, aos tipos que realmente governam este lugar. Mas não me deixam tocá-los, então eu me vejo forçado a equilibrar a situação, sendo duas vezes mais implacável com esta escória humana de brancos, negros e pessoas como você, que teem o cérebro metido no cu, pois não encontram outro lugar para usá-lo. Sim senhora, eu sou um trabalhador na vinha do Senhor, e se eu não posso chegar aos mais altos, sou forçado a trabalhar com mais dureza com as camadas que estão por baixo de mim."

Ainda que o romance “Pop. 1280” tenha sido publicado em 1964, durante a presidência do texano Lyndon B. Johnson e seus crimes de guerra contra o povo vietnamita na Guerra do Vietnam, a analogia entre a atitude infame do protagonista Nick e as atitudes da maioria dos presidentes dos EUA poderia incluir recentemente, não somente a psicopatia terrorista do ex-presidente George W. Bush na guerra contra os povos do Iraque e do Afeganistão, mas sobretudo, poderia incluir a infame e doentia devoção militarista/terrorista do ganhador do premio Nobel da paz: o atual presidente Barack Obama já que, ajudado por Hillary Clinton no cargo de secretária (ministra) do Departamento de Estado, continuou com os crimes de  guerra contra o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Síria e demais países sob a invasão  ou o domínio imperial dos EUA. (4)

Historicamente, uma das principais características do romance policial “hardboiled” tem sido o seu compromisso com representar a dura realidade do conflito social entre as classes, os gêneros, e as raças na sociedade capitalista.  Pode-se afirmar que o romance policial “hardboiled” não tem sido neutro diante da injustiça social, e que, desde o seu início ele aparece conectado à crítica política e social. De fato alguns dos seus mais importantes autores tais como Dashiell Hammett, Jim Thompson (Graham Greene e o romance de espionagem inglês) eram homens de esquerda, e tanto Hammet como Thompson foram perseguidos e aprisionados pelo FBI por estarem ligados ao marxismo e ao partido comunista.

Esta característica principal, e outras importantes características do gênero hard-boiled” também comparecem na narrativa do romance “Pop. 1280”.  Assim, a narrativa na primeira pessoa; o uso da linguagem coloquial (sem eufemismos) e o uso de gírias de rua, a ambivalência moral e o cinismo estão presentes no romance.

A ambivalência no que diz respeito aos valores éticos, por exemplo, leva o xerife Nick não somente a quebrar sistematicamente a legalidade e a lei como a transformar-se no próprio criminoso, num irremediável assassino. O xerife Nick  apresenta-se como um homem honesto,  com pretensões  a ser um moralista  no exercício do poder, mas, em essência, desenvolve um profundo cinismo que lhe capacita para se converter num xerife assassino e continuar no exercício do poder

Estes traços de caráter do protagonista Nick, associados ao exercício do poder como xerife rural, parecem encontrar um paralelo nos traços de caráter do presidente Barack Obama no exercício do poder como presidente dos EUA.

Independentemente da consideração (ou hipótese) de se a narrativa do romance “Pop.1280” seria uma metáfora shakespeareana do exercício do poder presidencial nos EUA; ou se o romance “Pop. 1280” funcionasse como uma alegoria nacional (5) da historia do capitalismo estadunidense, a realidade é a seguinte: se tomamos o exemplo dos oito anos do governo do presidente Obama; se resumimos os momentos especialmente demagógicos e as contraditórios da sua presidência, poderemos  estabelecer uma ampla analogia  com a atuação do xerife Nick Corey no romance “Pop. 1280”. Assim, em relação ao constante rompimento das promessas do xerife aos seus eleitores, correligionários, seguidores, amigos e habitantes do condado de Potts County, o presidente Barack Obama,  nos seus dois períodos de governo, rompeu mais promessas aos eleitores dos EUA, que os presidentes que lhe antecederam. Conforme o Registro do sociólogo James Petras (6), a administração de Obama fez constantes promessas a seus eleitores e seguidores para depois revisar imediatamente o que tinha prometido e dar marcha à ré. Ou seja, cada uma de suas promessas de reforma social, de atenção sanitária e de política exterior (fundada na diplomacia e o respeito) somente serviram de prelúdio à imposição de novas políticas mais regressivas e a novas guerras contra os seres humanos.

Acompanhando o Registro que o sociólogo  Petras (entre outros pensadores estadunidenses) faz da politica interna do “xerife” Barack Obama nos EUA, fica evidente que durante os oito anos de sua presidência, Obama rebaixou as expectativas de todas as camadas populares que ele cortejou e seduziu durante as suas campanhas eleitorais, ou seja, dos nove de cada dez americanos negros que votaram em Obama nas duas campanhas presidenciais. Mas apesar do massivo apoio dos afroamericanos, durante a presidência de Obama, aumentou a desigualdade na distribuição de renda entre os trabalhadores brancos e negros, aumentou a violência policial letal contra os afroamericanos e multiplicaram-se os ataques de paramilitares brancos, incluindo a queima de igrejas afroamericanas. Os afroamericanos acusados ​​de delitos não violentos relacionados com o uso de drogas (traficantes e consumidores) teem sido encarcerados a um ritmo muito maior que os dos brancos, enquanto as gigantescas elites farmacêuticas e os médicos que prescrevem os narcóticos que estimulam a adição para os opiláceos obtiveram benefícios cada vez maiores com total impunidade no governo Obama (6). Em relação a politica de imigração, a administração de Barack Obama concretizou, entre 2009 e 2015, a expulsão de três milhões de imigrantes para fora dos EUA. Conforme o Registro revelado pelo professor James Petras, Barack Obama detém o recorde de expulsão de imigrantes em toda a história dos EUA (7).

No plano da analogia relacionada à violência e ao extermínio do xerife Nick Corey contra seres humanos de outras latitudes, Obama, no plano da politica exterior, começou ou continuou o lançamento de sete guerras, e dezenas de operações violentas clandestinas, superando a do seu predecessor, o presidente George Bush filho. Suas guerras provocaram a maior cifra conjunta de africanos, árabes, asiáticos meridionais e europeus orientais despossuídos, feridos e assassinados da história mundial (8).

Resumindo, a analogia entre a atuação judicial e politica do xerife Nick Corey  e a atuação judicial e politica dos presidentes dos EUA (exemplificado nos dois períodos presidenciais de Barack Obama) sugerem que  o critério fundamental para avaliar o desempenho de um politico é seu papel (o lado em que se posiciona) na luta de classes politica-econômico-social-cultural: o conflito racial (ou de gênero) deve estar sempre relacionado, associado, articulado e/ou integrado à luta ou a guerra de classes sociais se quiserem ter eficiência para mudar a sociedade capitalista na qual estamos naufragando.

            Assim, a história do infame e barbáro governo do primeiro presidente negro (premio Nobel da paz que usava os “drones” para assassinar a população civil dos países pobres) durante os seus oitos anos como governante deste império é mais um exemplo de que os conceitos de raça (branco, negro...) e/ou de gênero (homem, mulher) de um individuo ou de um grupo não é suficiente para funcionar como critério fundamental para a avaliação do alinhamento ideológico e politico de Barack Obama (ou de qualquer que seja o presidente dos EUA) no plano econômico, social e cultural. Isolados, estes conceitos  de raça e gênero, (sem  conectar-se e integrar-se com o conceito de luta de classes) são conceitos demagógicos, pois não são capazes de dar conta  da  totalidade nem da complexidade das relações politicas econômicas e sociais entre os seres humanos na nossa sociedade, nem serão capazes de instrumentar as verdadeiras lutas imprescindíveis para derrotar o colonialismo, o imperialismo e o neoliberalismo, impostos pelos sistema capitalista no planeta Terra.

NOTAS

1) Pessoalmente prefiro ler romances policiais como “O Assassinato no Comité Central” (do espanhol Manuel Vázquez Montalbán) e/ou “Mortos Incomôdos”, Falta o que falta (de co-autoria dos mexicanos Paco Taibo II e o Subcomandante Marcos, EZLN) que romances policiais como “O Silencio da Chuva” ou “Achados e Perdidos” do brasileiro Alfredo Garcia-Roza.
Ainda que Garcia Rosa seja um notável ficcionista (extraordinário na narração do imaginário e fantasias dos seus personagens cariocas; excelente na descrição de locais e ambientes da cidade do Rio de Janeiro), a minha  preferência se deve ao fato do escritor Garcia-Roza ainda não ter sido  capaz, por um lado, de conectar a sua narrativa policial à gritante realidade histórica do Brasil: a de uma sociedade corrupta e corruptora que foi produzida pela existência de mais de 20 anos de ditadura militar para defender  os interesses da burguesia brasileira associada ao imperialismo dos EUA; por outro lado, do escritor não ter sido capaz de criar um protagonista brasileiro que lute para  transcender, politica e socialmente, a tradicional visão subjetiva (eticamente voluntarista e fantasiosa) encerrada no protagonismo do seu inspetor Espinoza. Ainda que a consciência individual, ética e voluntarista do filósofo judaico-português Baruch Espinosa, seja um dado ético exemplar da história da filosofia ocidental, em si mesmo, não oferece um modelo social, coletivo e eficiente, para combater a massiva corrupção do poder politico das autoridades brasileira, como podemos verificar pela função da corrupção na operação “Lava Jato” e no recente golpe de estado do PSDB e do PMDB contra a presidente Dilma Rousseff e a democracia brasileira.
A minha preferência também se refere ao fato de que a realidade histórica da narrativa de Montalbán transcende àquela das convenções do romance policial, conectando-se criticamente ao processo histórico da transição da sociedade espanhola (desde a ditadura do general Franco a suposta “democracia” que foi estruturada pela mesma correlação de forças sociais do período anterior: de um lado, a monarquia, a igreja católica, os militares provenientes do franquismo; do outro lado, as organizações representativas da classe trabalhadora espanhola). A mesma constatação poderia ser feita sobre a realidade histórica da narrativa de Taibo II e do sub comandante Marcos, pois ela está articulada às lutas de classes e as contradições politicas entre campo/cidade herdadas da revolução mexicana, como podemos observar no excelente ensaio “El detective social y los muertos despiertos: en busca de la justicia social desde el D.F. a Chiapas con Paco Ignacio Taibo II”, da professora Catherine  M. Bryan. Vejam este ensaio no link:


2) No romance “Pop. 1280”, a narrativa está situada nos EUA e foi originalmente editado pela Gold Medal Books em 1964, porém foi adaptado para o cinema pelo diretor francês Bertrand Tavernier: no seu filme “Coup de Torchon” (A lei de quem tem o poder) de 1981, a narrativa  está situada na África ocidental francesa.


 3) Os trechos dos diálogos em português que aparecem neste texto, correspondem a livre tradução do professor Jorge Vital de Brito Moreira.


4) Vejam a entrevista “Promesas rotas: El legado estructural de las democracias capitalistas” de James Petras  em: http://www.lahaine.org/mundo.php/promesas-rotas-el-legado-estructural

5) Sobre a função da alegoria na narrativa literária contemporanea vejam o ensaio de Fredric Jameson “Third-World Literature in the Era of Multinational Capitalism” no link http://postcolonial.net/@/DigitalLibrary/_entries/113/file-pdf.pdf
 Sobre a função do romance policial na perspectiva de um dos mais brilhantes criadores do gênero “Hardboiled” vejam o ensaio de Fredric Jameson “Sobre Raymond Chandler” na coletânea El Juego de los Cautos de Daniel Link.              

6) Vejam a entrevista do professor James Petras “Obama tiene el récord de expulsión de inmigrantes en toda la Historia de EE.UU.” no link: http://www.globalresearch.ca/obama-tiene-el-record-de-expulsion-de-inmigrantes-en-toda-la-historia-de-ee-uu/5563686                                                                           

7) Vejam o link da nota 6                                         

8) Vejam o link da nota 4 e da nota 6.

 

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