domingo, 20 de maio de 2018

Frustatas de Domingo


Juro que tentei de todas as formas possíveis publicar o vídeo (link abaixo) sobre o “lado oculto da guerrilha do Caparaó”, mas, não o conseguindo, fiquei muito frustrado.

É importante ressaltar que, muito embora a entrevista tenha ocorrido no programa do suspeito Bial, na famigerada Rede Globo, mostrou um lado pouco divulgado do comportamento das forças armadas durante a ditadura; em filme que registra depoimentos de diversas vítimas do acontecimento.

Clique no link e assista... vale a pena!

https://globoplay.globo.com/v/6738729/

terça-feira, 8 de maio de 2018

As verdadeira face de Trump


A questão de Irã no jogo político do médio oriente tem sido grave através dos tempos pós II Guerra. Israel, desde algumas décadas um país nuclear, não admite a outros países a quebra de sua exclusividade neste campo. Outrossim, países árabes e afins são a princípio seus inimigos.
O estado sionista é extremamente racista, fascista e exclusivista. Sua expansão e manutenção sempre foi, desde o início, à base da violência e do extermínio em suas ações... e sempre acobertada pelo apoio dos EUA.
O comportamento da nação imperial, no entanto, tem-se agravado com o passar do tempo. E o rompimento do acordo recém violado é uma prova contundente deste agravamento, vindo a mostrar que, em sua decadência os Estados Unidos são hoje um mero joguete dos interesses de Israel em relação à região.
Enquanto isso, aumentam as possibilidades de uma guerra generalizada, aspirada por Israel e Arábia Saudita para garantir o domínio total sobre as “raças inferiores”.

domingo, 6 de maio de 2018

Pensatas de Domingo. Karl Marx (1818-1883). No bicentenário de seu nascimento


Texto de Manuel Sacristán Luzón, editado por Salvador López Arnal .
Traduzido do espanhol para Novas Pensatas por Jorge Vital de Brito Moreira.

No dia 05 de maio de 1818, nascia na cidade de Treveris (Alemanha), o filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário  Karl Marx. Para celebrar os duzentos anos do nascimento de Karl Marx, o mais importante pensador do mundo  ocidental, apresentamos ao leitor de Novas Pensatas a tradução do professor Jorge Vital de Brito Moreira de um texto do filósofo marxista Manuel Sacristán Luzón que foi editado pelo professor  discípulo e colega Salvador López Arnal para rebelión.org.

Nota do Editor Salvador López Arnal:
É conveniente (e é justo) se aproximar da obra de Karl Marx, um dos grandes filósofos (mais que filósofo, como todos os grandes) da história da humanidade, neste ano de 2018, o ano do bicentenário de seu nascimento. E é igualmente justo abrir estas aproximações com um texto datado em 1967 para a enciclopédia Larousse-Planeta [1], na voz de um dos autores (também mais que um filósofo) que mais o leu (de verdade), estudou (a sério) e o interpretou (com cabeça própria). Falo de Manuel Sacristán (1925-1985), autor de Sobre Marx y marxismo, de Pacifismo, ecología y política alternativa, de Lecturas, de Intervenciones políticas, de Papeles de filosofía, de Estudios sobre El Capital y textos afines, de Seis conferencias, e, de Sobre dialéctica. 
As notas finais também são do editor Salvador López Arnal.

Marx, Karl ( texto de Manuel Sacristán)

Karl Marx foi um político, filósofo e economista alemão (Trier 1818-London 1883). Filho de um advogado hebreu de formação e tendências moderadamente iluminadas e liberais, sua infância foi passada na Renânia. Marx estudou na sua cidade natal e aos dezessete anos começou a faculdade de direito na Universidade de Bonn. Porém, desde sua transferência para a Universidade de Berlim (1836), Marx foi orientado cada vez mais claramente para a filosofia e a história. A partir deste período data seu namoro com Jenny von Westphalen, filha de um oficial de recente nobreza. Ao chegar a Berlim, o jovem Marx viveu intelectualmente no mundo das ideias do Iluminismo. A filosofia de Hegel, morto recentemente, dominava o ambiente espiritual de Berlim e estava dando origem a uma tendência progressista e democrática dentro da qual o jovem Marx logo seria colocado. Mas a mudança de orientação intelectual de Marx não ocorreu sem crise. Em uma carta ao seu pai em 10 de novembro 1837, chegou a colocar entre as causas da doença e depressão  que sofreu, a necessidade intelectual de adotar os motivos básicos do pensamento hegeliano: "Adoeci, como já escrevi para você (...), da irritação que me consumia porque tive que transformar em idolatria uma concepção que eu odiava". Apesar dessas tensões intelectuais, Marx já era em 1837 um "jovem hegeliano" de esquerda bastante típico. Tudo isso é testemunhado na referida carta, na qual abundam reflexões diretamente inspiradas pelo pensamento de Hegel e mesmo por questões de detalhes muito características desta filosofia, como a crítica despectiva do “pensamento matemático” ou formal em geral.

A orientação dominante dos “hegelianos de esquerda” era entender e aplicar a filosofia hegeliana como um instrumento crítico da sociedade existente. Mas, de acordo com suas concepções idealistas básicas, a sociedade era para eles tanto cultura explícita (ou cultura teórica) como grau de realização das ideias nas instituições: a crítica é também teoria como já afirmara Marx na sua própria tese de doutorado (um estudo sobre a filosofia de Demócrito e de Epicuro) em 1841 [2]. No entanto, o exercício da crítica colocou progressiva e naturalmente o jovem Marx na presença de realidades sociais, especialmente a partir do momento que ele começou a escrever jornalismo para a Rheinische Zeitung [3] da qual se tornou diretor (1842). Os debates da assembleia renana sobre questões como roubo de lenha na floresta, por exemplo, despertou em Marx, uma consciência sensível aos problemas sociais [4]. Logo no início, ele compreendeu a natureza de classe da legislação e dos debates da própria assembleia renana. Os artigos de Marx sobre o tema na Rheinische Zeitung pintam plasticamente não só as atitudes de classe dos oradores dos estamentos nobres e burgueses, mas também a natureza de classe do Estado, cujas leis e cuja ação administrativa tendem a fazer do poder social policial jurado dos interesses dos proprietários. A crítica do jovem Marx (que tinha vinte e quatro na época) a essa situação vem de uma linha liberal apoiada filosoficamente numa interpretação esquerdista do pensamento de Hegel: essa situação é condenável porque um estado classista não satisfaz a ideia do Estado como a realização de éticidade, da especificidade humana.

Pode ser documentado que Marx teve durante esses anos um primeiro conhecimento do movimento trabalhista (obreiro) francês e Inglês e do socialismo e do comunismo utópicos de Fourier, Owen, Sain-Simon e Weitling [5]. Em relação aos movimentos revolucionários franceses da época a sua fonte foi provavelmente a Augsburger Allgemeine Zeitung [6], no qual o poeta H. Heine [7] publicava relatórios de Paris em que várias vezes fazia alusão ao comunismo francês e aos imigrantes alemães. A reação de Marx a esses dados tem dois aspectos distintos: por um lado, ele considera justificado que "a classe que até agora não tem possuído nada”
aspirem a possuir e reclama da atitude puramente negativa da classe dominante alemã em relação à aspiração econômica do proletariado e sua luta por objetivos materiais imediatos (por exemplo, Marx comenta a grande agitação de Lyon) que lhe parecem  fenômenos naturais justificados sem importância e nada assustador. Mas Marx vê nas ideias comunistas ideias parciais – ideias de classe- tão incapazes como as da classe dominante para realizar o estado ético.

As ideias comunistas são um "medo da consciência que provoca uma rebelião dos desejos subjetivos dos homens contra as compreensões objetivas do seu próprio entendimento”. Essas “compreensões objetivas” são o conceito hegeliano do estado, contra a qual o comunismo é para Marx, de então, a noção parcial de um "estado de artesãos". Em 1843, a censura procedeu contra Rheinische Zeitung e Marx teve que renunciar. Já previamente a este endurecimento da censura, o endurecimento da politica universitária  prussiano, lhe havia motivado a desistir do seu projeto de uma carreira universitária. Este ano de 1843, no qual Marx se somaria a emigração política alemã em Paris, foi abundante de acontecimentos decisivos para a sua vida: além de se casar, ele conheceu a Heine, Borne, Proudhon e Engels. Com estes desenvolvimentos, nasceu  Karl Marx como uma figura de grande influência para a história das ideias e dos fatos. A amizade com Engels trouxe a Marx, diante de tudo, a convicção de que ele tinha que estudar profundamente os problemas econômicos [8]. A consciência desta coincidiu com esta fase de sua evolução intelectual e moral com o uso do pensamento de Feuerbach (um humanismo abstrato que culmina em uma crítica recusatória da religião e da filosofia especulativa) como um corretivo do idealismo de Hegel.

Esta situação reflete-se principalmente em três trabalhos muito importantes para a compreensão de seu desenvolvimento intelectual: dois escritos (1843) para Deutsch-französische Jahrbücher [9], a Crítica da filosofia hegeliana do direito e Sobre a Questão Judaica; e outros não publicados durante a sua vida e que permanece em estado de borrador: os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844.Todos esses escritos- o último sobre tudo- apresentam caracteristicamente o que mais tarde Marx consideraria uma "mistura" do ponto de vista ideológico, ou de história e crítica de ideias, com o factual, ou de análise e interpretação de dados. Esta característica indica suficientemente o lugar de transição ocupado por esses escritos na biografia intelectual de Marx. O aspecto mais puramente filosófico desta transição pode ser visto nos manuscritos especialmente em sua tentativa de esclarecer a síntese do pensamento recebido a partir do qual está organizando o seu pensamento.

Em 1845, Marx teve que sair de Paris. Ele foi para Bruxelas e em 1847 para Londres. Deste período são as obras em que se pode ver a primeira formulação do materialismo histórico: A Sagrada Família, A ideologia alemã, A Miséria da Filosofia e o Manifesto Comunista (escrito em 1847, publicado em 1848). Engels já registrou naqueles anos o ponto de viragem, caracterizando-a como uma superação das ideias de Feuerbach: "Mas tinha que se dar o passo que não deu Feuerbach; o culto do homem abstrato, que constituía o núcleo da nova religião,  tinha que ser substituída pela ciência do homem real e sua evolução histórica. Este desenvolvimento posterior do ponto de vista de Feuerbach para além Feuerbach, começou em 1845, através da obra de Marx, na Sagrada família". Neste trabalho e na Ideologia Alemã, Marx (em colaboração com Engels) vai explorando, com a ocasião de motivações polêmicas, sua nova concepção da relação entre o que passará a ser chamado no marxismo, de superestrutura (instituições e formações ideológicas) e que seria chamado de base da vida humana, gradualmente entendida como o sistema de relações (ou condições, como a palavra alemã "Verhältnisse" sempre usada no plural, neste contexto, significa ambos, e circunstâncias) de produção e apropriação do produto social. No Manifesto Comunista (em 1847, a mais tardar) já está presente, além da tese marxista clássica que aparece na primeira frase do famoso texto ( "A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história das lutas de classes") também o esquema dinâmico de evolução histórica como se entende do  marxismo, a saber, a tensão dialética entre as condições ou relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas. No Manifesto diz Marx, por exemplo, que "as forças produtivas modernas" estão em tensão "por décadas" com "as relações modernas de produção, relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e do seu domínio".

Em 1847, Marx era membro da Liga dos Comunistas e trabalhava intensamente na organização do movimento trabalhador. A evolução de 1848 levou-o a mudar-se para a Alemanha (abril), como fez Engels, para colaborar pessoalmente na revolução democrática alemã. Marx publicou em Colônia o Neue Rheinische Zeitung [10] de vida efêmera (1848-1849). Após o fracasso da revolução, foi para  Londres (expulso de Paris) em 1849. E em 1850 a Liga dos Comunistas foi dissolvida. Marx já não se mudaria de Londres mais do que de maneira muito transitória e excepcional, ou por motivos de saúde nos últimos anos de sua vida. Esta fase, que começou nos anos 50, é de muito sofrimento causado pela pobreza, pelo esforço e pela consequente falta de saúde. Neste momento, a preparação dos materiais e análise para O Capital tinha começado [11], que sofreria inúmeras mudanças em relação aos projetos iniciais de Marx. Os textos conhecidos com os  títulos Contribuição à Crítica da Economia Política, Elementos fundamentais para a crítica da economia política, e Teorias da Mais-Valia são todos desse período e preparatórios de O Capital (isso pode ser dito objetivamente, mas não no sentido de que eles eram os planos literários de Marx). Três anos antes do surgimento de O Capital (vol. I) foi fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Internacional por excelência. Pouco depois de sua fundação, Marx foi chamado para participar e se tornou o seu verdadeiro guia, escrevendo o memorando inaugural e os estatutos. A diferente concepção do caminho a ser seguido na luta revolucionária levou-o a confrontar-se com Bakunin e seus partidários, que em 1872 foram expulsos da Internacional. O primeiro volume do Capital, o único publicado enquanto Marx vivia, tem sido durante o século seguinte ao da sua publicação, o trabalho mais influente e famoso de seu autor: só mais recentemente, sua obra anterior e de juventude, começou a solicitar uma atenção semelhante. Contemplada a partir de sua obra anterior, O Capital aparece como o fechamento de um movimento intelectual de distanciamento progressivo e de negação da especulação filosófica e de sua pretensão de ser o fundamento da ação política revolucionária; no mesmo movimento esse papel é atribuído a um conhecimento positivo da realidade histórica, social e econômica. "Uma vez reconhecido que a estrutura econômica é a base sobre a qual a superestrutura política é erguida, Marx atendeu principalmente ao estudo desta estrutura econômica" (Lenin).

 O conceito básico e novo, pelo menos no seu uso sistemático, nas obras da época de O Capital é o de mais-valia. Com este conceito, Marx propõe uma explicação da obtenção de valor pelo dono do dinheiro como resultado de sua circulação. O ganho em valor é explicado porque o capitalista pode comprar e de fato compra a única mercadoria que produz valor com seu consumo, a força de trabalho. Nas obras que, como O Capital, são características da maturidade de Marx, há uma recuperação dos conceitos hegelianos. O próprio Marx comentou sobre o fato, explicando simultaneamente em ambas as direções, como mero "flerte" intelectual com a linguagem filosófica de Hegel, por reação contra a vulgaridade  anti-hegeliana da cultura de esquerda alemã dos anos 50 e 60; e no reconhecimento de que a "mistificação [idealista] que sofre a dialética nas mãos de Hegel não anula de maneira nenhuma o fato de que ele foi o primeiro a apresentar de modo abrangente e consciente as formas  gerais de movimento da dialética. A dialética se encontra invertida no pensamento de Hegel. É necessário endireitar para descobrir seu núcleo racional dentro do invólucro místico”. "(Prefácio à 2ª edição do vol. I de O Capital).

As vicissitudes e os pontos de viragem da evolução intelectual de Marx, tão rica e revoltosa como a de qualquer outro grande pensador, levantam duas questões que são atualmente [12] temas da maior parte da literatura marxista: os "cortes” "quebras" ou "rupturas "que podem ter havido nessa evolução, especialmente entre os anos de 1842-1847, e a natureza do trabalho teórico de Marx, tão diretamente ligado (ao contrário do trabalho intelectual moderno típico, por exemplo, de um físico) com objetivos práticos (políticos revolucionários) [13]. Quanto ao primeiro problema, podemos dizer pelo menos que uma revisão da evolução intelectual de Marx, por curioso que seja, identifica não um, mas vários pontos de viragem (alguns mesmo depois de O Capital), nenhum dos quais, no entanto, é revelado como uma ruptura completa: em 1851, por exemplo, iria escolher para liderar uma publicação de seus escritos um artigo do ano 1842, as "Observações sobre a recente instrução prussiana sobre a censura".

Quanto ao segundo problema, também parece claro que Marx praticou, com as questões econômicas, um tipo de trabalho intelectual não idêntico à que é característico da ciência positiva, embora composto, entre outros, por esta ciência. Está claro que Marx atribui um status intelectual peculiar a toda ocupação científica geral com problemas econômicos. Assim, ele escreve, por exemplo, no prólogo acima mencionado para a 2ª edição do vol. I de O Capital: "Na medida em que é (ciência) burguesa, isto é, enquanto conceba a ordem capitalista como forma absoluta e única de produção social, em vez de como um estágio evolutivo transitório, a economia política não pode ser sustentada como uma ciência, enquanto a luta de classes seja latente e se manifeste apenas em fenômenos isolados". Marx nunca fez uma afirmação semelhante sobre qualquer outra ciência.

Em 1870 Engels pode se mudar à Londres e entrou para o “Conselho Geral da Internacional”, aliviando Marx de parte do seu trabalho, permitindo que ele se retirasse em 1873 da vida pública e se dedicasse aos esforços que seu problemas de saúde permitissem na continuação da redação escrita de O Capital [14]. A morte de sua esposa e filha [15] o afetou profundamente e precipitou o seu próprio fim.

Notas:
1) "Marx, Karl",Enciclopedia Larousse, pp. 6271-6272
2) “Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e a de Epicuro”.

3) Gazeta Renana.

4) O mesmo poderia ser dito, em outra ordem de coisas, do jovem Engels.

5) As aproximações do autor a essas correntes socialistas podem ser vistas no terceiro capítulo do Manifesto Comunista.

6) Gazeta Geral
Aubsburguesa.

7) Sobre Heine pode ser visto: M. Sacristan,
"Heine la consciencia vencida", no livro Lecturas, Barcelona, Icaria, 1985, pp. 133-215.
8) Sobre Engels escreveu Sacristán em uma nota de um artigo de 1960: "Al escolástico que después de laboriosa búsqueda consiga encontrar en Engels alguna frase que parezca decir lo mismo que dice Tresmontant que son las tesis del marxismo -y tal como éste las formula- se le contestará: 1º que Engels no fue un Padre de la Iglesia, sino, junto con Marx y Lenin, uno de los tres grandes pensadores, en los cuales el proletariado -y la humanidad al mismo tiempo- consiguió la consciencia de su ser; 2º que Engels murió en 1895, y 3º: que el que escribe estas notas tiene sobre Engels la tan decisiva como poco meritoria ventaja de ser un engelsiano vivo".
9) Anais franco-alemães

10) Nova Gazeta Renana

11). Sacristán traduziu os livros I e II para a editora Crítica-Grijalbo. Ele deixou metade da tradução do Livro III que não foi publicado na OME. César Rendueles usou essa tradução em algumas de suas antologias sobre o trabalho marxista publicado na
Alianza editorial..

12) Lembre-se: no final dos anos sessenta, em pleno auge da influência de Althusser e seus seguidores no marxismo ocidental (ou em grande parte dele, pelo menos).

13) Alguns dos textos coletados em Sobre dialectica, edi cit, enfocam esse problema. Nós daremos conta deles.

14) Foi Engels, como é sabido, com a ajuda de Tussy Marx, que editou os livros II e III do Capital.

15) Sua esposa: Johanna Bertha Julie von Westphalen, "Jenny" (Salzwedel, 12 de fevereiro de 1814-Londres, 2 de dezembro de 1881); sua filha mais velha Jenny Longuet Marx (Jennychen) (11 de Maio 1844-1811 janeiro de 1883. Ao longo da vida própria obra de Marx e Marx é essencial: Mary Gabriel,
, Amor y Capital. Karl y Jenny Marx y el nacimiento de una revolución. El Viejo Topo, 2014, tradução de Josep Sarret.

domingo, 15 de abril de 2018

Pensatas de Domingo. Tudo que você queria saber sobre dominação ideológica mas se esqueceu de perguntar a Alfred Hitchcock (1)


Jorge Vital de Brito Moreira

Alfred Hitchcock era um diretor de cinema que se tornou uma referência para a metáfora do titulo de um dos seus destacados filmes realizado nos EUA: “O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1956).
Ainda que eu não seja um fã particular do cinema clássico hollywoodiano nem do género de suspense que Hitchcock desenvolveu, não me é difícil reconhecer sua elaborada complexidade significativa e seu grande nível de reflexividade artística. Esta reflexividade é, entre outras coisas, uma de suas grandes contribuições ao questionamento dos fundamentos filosóficos, morais e artísticos (relação forma/conteúdo) da tradição cinematográfica do cinema clássico originado no principio do século XX pelo cinema de David W. Griffith.
Desde que o diretor francês Francois Truffaut publicou o livro de entrevistas com o diretor britânico-estadunidense (2), é necessário reconhecer que a bibliografia sobre Hitchcock não tem parado de crescer, destacando a sua importância no cinema. Hoje a critica cinematográfica atual tem reconhecido que os filmes de Hitchcock tem contribuído extraordinariamente para o questionamento da nossa cultura no sentido de transcender intelectual, psicológica e esteticamente, as limitações da narrativa cinematográfica clássica. Uma narrativa que está baseada nas categorias metafísicas do bem e do mal: categorias que tem sido dominante historicamente nos relatos míticos da bíblia, da filosofia, da literatura, da moral hegemónica e legitimadora da ideologia política e intelectual da cultura ocidental e judaico-cristã.

Hitchcock e a prisão do espectador pelo controle do ponto de vista (3)
Nesse texto, gostaria de comentar, por um lado, alguns dos elementos formais e de conteúdo da linguagem cinematográfica de dois filmes de Hitchcock: “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954) e “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, 1958). Filmes que, na minha opinião, tem sido cada vez mais importantes e obrigatórios para melhor entender a relação diretor/receptor (leitor, espectador, a opinião publica) do discurso artístico, compreendendo também a função ideológica desta relação na produção audiovisual do cinema (e na mídia corporativa), na fabricação de discursos culturais que justificam e legitimam, através da manufatura do consenso publico, a dominação econômica, política e social pela classe dominante do sistema capitalista sobre o imaginário dos indivíduos na cultura moderna/pós-moderna das sociedades ocidentais. 
Por outro lado, gostaria também de comentar neste texto a eficácia da reflexividade da linguagem cinematográfica hitchcockiana para destacar a forma predominante em que os governos dos EUA tem dominado o imaginário e a mentalidade ideológica da opinião publica ocidental com a finalidade de justificar e legitimar as invasões e as guerras do império estadunidense contra os países que são vitimas da opressão e exploração do capitalismo globalizado.
Para articular sinteticamente as relações entre o discurso cultural e a sua recepção por parte da opinião publica atual, analisarei primeiramente a relação entre o produtor/diretor da cena do crime e o receptor/espectador da cena do crime  nos dois filmes de Hitchcock: “Janela Indiscreta” e “Um Corpo Que Cai”. Assim,  escreverei como ponto de partida, o argumento do filme Janela Indiscreta (Rear Window):
Depois de quebrar a perna fotografando um acidente de carro numa pista de corrida, o fotógrafo  Jeff (James Stewart) é forçado a permanecer em repouso com a perna engessada. Apesar de contar com a companhia de sua namorada Lisa (Grace Kelly) e de sua enfermeira Stella (Thelma Ritter), Jeff tenta escapar do tédio diário, olhando, assistindo, espiando (com a ajuda de binóculos e da câmera fotográfica) da janela do fundo do seu apartamento o que acontece no fundo das casas da vizinhança. Em algum ponto desta situação, o fotógrafo Jeff, devido a uma série de circunstâncias estranhas, começa a suspeitar do comportamento de seu vizinho Lars Thorwald (Raymond Burr), do outro lado da rua, cuja esposa desapareceu.
Tanto o filme “Janela Indiscreta” como o filme “Um Corpo Que Cai” podem ser entendidos, em pelo menos dois planos: no primeiro plano, podemos identificar um plano imediato que é o da história onde existe um enredo, um espaço/tempo, onde existem  personagens que convivem, interagem uns com os outros, que criam conflitos e onde existem ações determinantes. Tradicionalmente, neste tipo de narrativa, se apresenta uma situação, que logo se complica, para finalmente aparecer um desenlace.
Mas existe também um segundo plano, onde aparece um desdobramento mais abstrato, no qual acontece uma outra história, ou seja, onde se coloca uma  questão diferente. É no  desdobramento deste segundo plano onde se coloca em debate a própria representação da ficção cinematográfica, seu caráter visual, e a relação do espectador com o cinema. É neste plano que nós vamos focalizar predominantemente a nossa interpretação, e o nosso comentário dos filmes “Janela indiscreta” e “Um Corpo Que Cai”.
Assim, a posição do fotógrafo Jeff no filme “Janela Indiscreta” pode ser vista como uma metáfora do espectador de cinema ou de teatro (4) aquele que fica por algum tempo “sentado e retido numa cadeira” para assistir um espetáculo de suspense. Desse modo, o ponto de vista (5) de Jeff funcionaria como uma metáfora que poderia também ser extrapolada para a situação (ou posição) de qualquer receptor da narrativa literária ou áudio visual: para o público consumidor de filmes, romances ou das notícias  produzidas pela mídia corporativa (jornais, canais de TV, etc.) ocidental.
No filme “Janela Indiscreta”,  a posição  do criminoso Lars Thorwald  pode ser vista como uma metáfora do diretor de cinema que realiza um filme e que poderia ser extrapolada para qualquer produtor ou criador de uma narrativa literária ou audiovisual para um público consumidor. Neste caso concreto, o diretor de cinema trataria de produzir uma estratégia visual com o objetivo de esconder o crime cometido, aprisionando o olhar dos vizinhos dentro de um ponto de vista que o incapacitaria para ver o que realmente sucedeu; tornando-o então  capacitado para justificar e legitimar a “inocência” do criminoso, logo: a sua não culpabilidade do crime cometido contra a sua esposa.
Em resumo, o final do filme “Janela Indiscreta” de Hitchcock, sugere que Lars Thorwald é um diretor de cinema sem talento, pois não é capaz de aprisionar o espectador, receptor, ouvinte, dentro do ponto de vista (6) desejado por ele: o ponto de vista que evitaria que o espectador descobrisse a cena do crime e portanto da sua responsabilidade pelo assassinato. 
No filme “Um Corpo Que Cai”, o argumento poderia ser descrito da seguinte forma: O detetive de polícia Scottie Ferguson (James Stewart) da cidade de San Francisco, EUA, sofre de acrofobia/vertigem. Scottie decide retirar-se de serviço policial depois que um companheiro de trabalho (um policial) morre ao cair da borda de um edifício enquanto perseguia um delinquente. Um dia, Scottie recebe um telefonema de Gavin Elster (Tom Helmore) um ex-colega de estudos, que lhe oferece um contrato para vigiar secretamente a vida da sua esposa Madeleine (Kim Novak).
Aparentemente, Madeleine sofre de melancolia/depressão e parece estar possuída pelo espírito de sua bisavó, Carlota Valdés, que havia se suicidado cem anos antes da existência de Madeleine. Gavin Elster teme que Madeleine cometa um suicídio e pede a Scottie que a siga por diferentes partes da cidade: lojas, cemitérios, hotéis, museus. Ainda que Scottie trate de impedir uma primeira tentativa de suicídio, não pode evitar que Madeleine se jogue da torre de uma igreja católica e morra.
Depois do julgamento do detetive Scottie (pela suposta responsabilidade do fim trágico de Madeleine), Scottie é liberado pela justiça. Depois de se despedir de Gavin Elster (que está deixando os EUA para viver na Europa), Scottie descobre que estava profundamente apaixonado por Madeleine, caindo em uma fortíssima crise emocional/psicológica o que lhe obriga a passar tempo numa clinica psiquiátrica para recuperação da insanidade mental.
Algum tempo depois, Scottie encontra numa rua a Judy Barton (Kim Novak), uma mulher de aparência comum, mas que Scottie associa a figura trágica de Madeleine.
Para recuperar se da melancolia do amor perdido, Scottie busca a amizade de Judy e tenta transformá-la, através da sua memória obsessiva, na trágica Madeleine, forçando Judy a se vestir, a pentear-se, a pintar-se, e até mesmo a caminhar como Madeleine. Uma sucessão de indícios e eventos reveladores levam Scottie a suspeitar de que tinha sido enganado e que Madeleine e Judy Burton são a mesma pessoa. A confissão forçada de Judy revela que ele foi efetivamente enganado pela trama criminosa elaborada por Gavin Elster, pois a figura feminina que morreu era a mulher legitima de Elster: ela tinha sido assassinada por Elster que a jogou da torre da igreja católica  para herdar a fortuna material da falecida.
Aqui, a posição do detetive policial Scottie pode ser vista como uma metáfora do espectador que trabalha para saber a veracidade do que acontece por detrás das aparências. O ponto de vista de Scottie também funciona como uma metáfora do espectador que poderia também ser extrapolado para a situação (ou posição) de qualquer receptor de uma narrativa literária ou áudio visual; para o publico consumidor de filmes, romances ou noticias produzidas pela media corporativa (jornais, canais de TV, etc.) ocidental.
Neste filme de Hitchcock, a ação do criminoso Gavin Elster pode ser vista como uma metáfora do diretor de cinema que realiza sequências de cenas e poderia ser extrapolada a qualquer produtor ou criador de uma narrativa literária ou audiovisual para um público consumidor ocidental. Neste caso concreto, o diretor de cinema, Gavin Elster, trataria de produzir uma estratégia visual com o objetivo de  esconder o crime cometido, colocando o olhar do receptor, do espectador, dentro de um ponto de vista que o incapacitaria para ver o que realmente sucedeu, tornando-o desta forma capaz de justificar e legitimar a inocência do criminoso e portanto a sua não culpabilidade pelo crime cometido contra a sua esposa.
Metaforicamente, o final do filme “Um Corpo Que Cai” de Hitchcock sugere que Gavin Elster é um excelente diretor de filme: um cineasta de muito talento pois é extremamente habilidoso para aprisionar o espectador, receptor, ouvinte, dentro do ponto de vista desejado por ele: o ponto de vista que evitaria que o espectador Scottie descobrisse a cena do crime e portanto a responsabilidade pelo assassinato da sua mulher e a consequente punição do assassino
Em oposição ao que acontece com o criminoso Lars Thorwald  no filme “Janela Indiscreta”, no filme “Um Corpo Que Cai”, o criminoso Gavin Elster, o verdadeiro responsável pelo assassinato da esposa Madeleine, fica isento da culpa do seu crime, continuando  rico, livre e longe da punição da justiça.

Hitchcock, as guerras imperialistas dos EUA e a função do ponto de vista militarista da midia corporativa no aprisionamento da opinião publica
A falida guerra do Iraque produzida pela administração Bush contra a população do Iraque continua sendo questionada por parte da população estadunidense e mundial: Como foi possível que a população dos EUA e a população mundial ilustrada tenha sido enganada pelas narrativas mentirosas do governo Bush/Cheney/Rumsfeld com a ajuda da mídia corporativa ocidental? Como foi possível que a administração Bush e a mídia estadunidense produzisse um ponto de vista que aprisionou a opinião pública estadunidense e mundial na crença de que Saddam Hussein possuía bombas atômicas e nucleares (armas de destruição massiva, Weapons of Mass Destruction) para jogar contra os EUA? Como foi possível aprisionar a opinião pública dentro do mesmo ponto de  vista do enganado detetive Scottie que no filme “Um Corpo que Cai”? E como foi possível que o criminoso Bush e sua administração tenha saído livre do crimes que cometeu no Iraque e no Afeganistão?
            O que continua surpreendendo é que a falsificação e o engano da opinião publica produzida pela narrativa sobre a guerra do Iraque e do Afeganistão da administração Bush (e a mídia corporativa) não é um acontecimento isolado na história política e militar dos EUA. Já tinha acontecido nas guerras do passado e continua acontecendo nas guerras do presente.
O último filme  de Steven Spielberg, intitulado “The Post”, mostra e reafirma as revelações de Daniel Elsberg  (dos Documentos do Pentágono e as mentiras do governo dos EUA sobre a guerra do Vietnã) de como se produziu a falsificação e o engano da população estadunidense sobre esta guerra pela presidência de Richard Nixon. O filme “The Post” também mostra a sistemática falsificação e enganação do povo estadunidense por parte dos presidentes Harry S. Truman, Dwight D. Eisenhower, John F. Kennedy, Lyndon B. Johnson, Richard Nixon, associando-se a mesma historia de falsificação e enganação da opinião pública estadunidense revelada pelo filme de Oliver Stone sobre Edward Snowden.
Atualmente, o processo de falsificação e enganação da opinião pública mundial produzida pelo poder político estadunidense (e pela sua mídia corporativa) se tornou uma prática manipulativa em várias partes do mundo. Na América Latina, por exemplo, podemos observar este processo de falsificação e engano dos brasileiros em dois acontecimentos políticos de importância transcendental para o Brasil: o golpe de estado do golpista Michel Temer e a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Neste dois golpes políticos, a mídia corporativa brasileira (e estadunidense) tem  sido utilizada para  justificar/legitimar o golpe de estado anticonstitucional por parte da quadrilha do usurpador corrupto Temer contra o governo de Dilma Rousseff (eleita democraticamente pelo povo brasileiro); e justificar/legitimar a  prisão ilegal do ex-presidente Lula da Silva sem provas jurídicas validas legalmente.
 Atualmente, o aprisionamento da opinião publica mundial dentro do ponto de vista militarista anglo-sionista fabricado pelo imperialismo americano tem sido altamente funcional para continuar falsificando, enganando, e manipulando as informações para justificar/legitimar as agressões políticas e militares contra os países da Venezuela, a Rússia, o Irã, a China, a Palestina, a Coréia do Norte e mais recentemente a Síria.
As últimas revelações sobre a falsificação e engano do público mundial por parte da violação da privacidade dos usuários de Facebook de Mark Zuckerberg e Cambridge Analítica servem para justificar e legitimar o poder do atual presidente Donald Trump, ajudando-o na capacidade de jogar acusações (sem provas) contra o governo da  Síria e da Rússia de Vladimir Putin pelo uso de armas químicas. Com o objetivo de distrair a opinião pública estadunidense das supostas acusações sobre sua prostituição e corrupção,  o presidente  Donald Trump decidiu atacar a Síria com mísseis estadunidenses.
Assim, concluiremos aqui com as seguintes perguntas: Será possível algum dia, liberar a opinião pública da prisão do ponto de vista do enganado detetive Scottie no filme “Um Corpo Que Cai”? Será possível algum dia, responsabilizar e penalizar as administrações presidenciais dos EUA pelos crimes cometido contra a humanidade, acabando com a impunidade de assassinos tipo Gavin Elster do mesmo filme de Hitchcock?

1) O titulo deste texto está inspirado no titulo do livro Todo Lo Que Ud. Siempre Quiso Saber Sobre Lacan y Nunca Se Atrevio a Preguntarle a Hitchcock uma compilação de Slavoj Zizek (2002).

2) Francois Truffaut Hitchcock/Truffaut, ou Le Cinéma selon Alfred Hitchcock

3) Na história da literatura ocidental a utilização do ponto de vista tem sido um dos elementos formais centrais na produção da narrativa ficcional. No Brasil de final do século XIX, o romance Dom Casmurro do escritor Machado de Assis tem sido um exemplo magistral do uso do foco narrativo (de um narrador em primeira pessoa) para colocar toda a visibilidade da história em beneficio de Bentinho em detrimento de Capitu (O leitor pode aprofundar se na analise e critica dos elementos formais do romance de Machado de Assis, lendo a analise do  professor Afranio Coutinho sobre este romance e a do professor Roberto Schwarz para toda a produção romanesca do escritor.

4) Ismail Xavier no livro O olhar e a cena” de 2003 da Editora Cosac & Naify.

 5) Outro exemplo magistral do uso do ponto de vista (de três  pontos de vistas diferenciados ) se encontra no Brasil da segunda metada do século XX se encontra no romance Maira de Darcy Ribeiro para relatar a complexidade da nação brasileira da atualidade.

6) A questão da importância do ponto de vista na literatura européia tem sido objeto de  analises e  criticas desde diferentes escolas de teoria literária (formalismo, fenomenologia,  estructuralismo, pos-estructuralismo, marxismo, etc). Para atenerme ao enfoque deste trabalho,  gostaria de  mencionar também a importante analise comparativa do professor, filosofo e lógico Manuel Sacristán Luzón intitulado “Tres grandes libro en la Estacada”. En este significativo estudo comparativo sobre a relação forma/conteúdo das narrativas de Thomas Mann, Pedro Salinas y George Orwell se puede observar que o reconhecimento da superioridade do romance de Thomas Mann por parte de Sacristan  se relaciona con a diferença de pressupostos históricos filosóficos sobre a deshumanização civilizatoria de principios da segunda metade do século XX) e com a questão formal do ponto de vista: dos três pontos de vistas existente na narrativa do escritor alemão Thomas Mann.